quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Decifrando o filme A VIAGEM


Acredito que possuo algumas chaves para compartilhar rumo a decifração do filme A Viagem dos irmãos Wachowski. 

A primeira delas é a concepção de reencarnação nela passada. É uma que, definitivamente, mantém a individualidade e a aspiração dos Espíritos entre uma vida e outra, bem como seus medos, seus entraves, suas necessidades de superação.

A segunda é uma dica aos espíritas que forem assistir. Favor, não ir esperando que os erros de uma vida passada devem ser "pagos" na outra vida, como uma Lei de Talião universal. O que parece se desenrolar em todos aqueles tempos, e que podemos concluir que deve ser assim para todos os tempos sucessivos, são grandes dramas da condição humana, isto é, vontade de liberdade, vontade de saber, vontade de amar, vontade de ser feliz. Todos temas que conduzem a transcendência da "ordem natural". Existe a repetição do padrão aprisionamento-libertação em todas as épocas. Uma mensagem que corre os mares e os ares, saindo de um tempo a outro. 

Não me surpreenderia se houvesse uma simbologia importante presente na água do mar que acolhe o navio que inicia o filme, na água que quase afoga a repórter investigativa fazendo perder certos documentos importantes, e no fluido cósmico que transmite a "verdadeira verdade"para o espaço infinito. De qualquer forma, o tempo é um imenso mar composto por mil gotas. Não é a toa que os fluxos daquelas vidas se misturam como ondas revoltas desrespeitando o tempo e o espaço convencionais. Não é no tempo que devemos nos concentrar muito, mas nos dramas, os mesmos dramas humanos de libertação. 

Existe uma clássica metáfora filosófica de como seria a visão de Deus. Claro que é algo pretensioso querer explicar "a visão de Deus", mas houve quem ousou fazer. E, de forma simples, é como se fosse uma partitura. Na folha de papel está toda a música em um só instante. Quando eu a entrego a um músico, entrego-a de forma integral, pronta, fechada. E os dedos do instrumentista a vai deslindar no instrumento que quiser tocar. Mas, ela, no papel, está toda, inteira, incólume. Em certo momento do filme, quando um dos ciclos está se fechando, a partitura é terminada. A grande metáfora do filme está na partitura! Não é a toa que, em inglês, seu nome é Cloud Atlas, assim como o do concerto escrito pelo jovem músico. Eis o motivo de a estética do filme se passar misturando, como em um grande concerto, o tempo, o espaço, as pessoas. Tudo é uma coisa só.

Por fim, veja que coisa!, há uma revolução sem precedentes na forma de encarar as profecias expelidas pela boca da sacerdotisa. Em uma das histórias, a que finaliza, o personagem do Tom Hanks, que até então vem seguindo direitinho todo o combinado pelo vaticínio, desobedece em prol da vida de uma criança. Ele se utiliza da sua liberdade, quebrando a ordem pretensamente divina, a fim de dar lugar ao que o seu coração diz sobre como melhor salvar a pessoa que ele ama. Ele já tinha feito isso antes com o Espírito maligno que o acompanhava. Repete o feito. E não se arrepende. Por que revolucionário? Porque não é mais seguindo a mensagem do Deus (ou do Diabo) exterior que o homem constrói sua vida, mas seguindo a que vem do seu peito. É como se deixássemos de acreditar que é o Sol que gira em torno da Terra. Isso contrasta completamente com a mentalidade do povo primitivo a que pertencia. Isso o entrega a uma nova forma de transcendência. Uma transcendência que nasce dentro de si, da sua imanência. Isso lhe coloca no controle da sua própria vida. É assustador, e apaixonante. 

Eu tinha falado sobre o fim, mas o fim mesmo é quando tudo acaba. Quando sua vida acabar, para onde você pensa ir? Para o paraíso, para o inferno? Assistam ao filme e vocês verão que a resposta que ele propõe não se distancia muito da que Ulisses de Homero daria. E há quanto tempo Odisséia foi escrita? Não parece, certamente, ser o tempo que importa!

O que o Espiritismo tem a falar sobre tudo isso, falo depois. Haverá tempos...